Infiltração do crime organizado – Uma série de fundos de investimento estruturados para antecipar valores de boletos pendentes, assumindo o risco de inadimplência em troca de rentabilidade, vinha adquirindo duplicatas por preços muito próximos ao valor integral dos títulos. Além disso, os papéis negociados tinham vencimentos bastante curtos, em alguns casos de apenas alguns dias úteis, enquanto o padrão do mercado costuma variar entre dois e seis meses.
As investigações da Operação Fluxo Oculto, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) e pela Receita Federal, revelaram na semana passada que esses recebíveis eram inexistentes, vinculados a empresas de fachada. Segundo os órgãos, os fundos eram utilizados para dar aparência legal a recursos provenientes da atuação de organizações criminosas no setor de combustíveis.
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Antes de chegarem aos fundos, os valores transitavam por fintechs clandestinas que operavam entre distribuidoras e postos envolvidos na comercialização de combustíveis adulterados. Dali, os recursos seguiam para os veículos de investimento. Um dos principais instrumentos empregados para ocultar a origem do dinheiro eram as chamadas contas-bolsão, modalidade que reúne os recursos de diversos clientes em um único ambiente, sem identificação individualizada dos titulares, dificultando o rastreamento patrimonial.
Grande parte dessas fintechs atuava sem autorização do Banco Central, escapando de controles mais rígidos da autoridade monetária e do monitoramento de órgãos de inteligência financeira, como a Receita Federal e o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
O esquema reproduz a lógica identificada pela Operação Carbono Oculto, primeira investigação a expor a profundidade da influência do PCC em setores da Faria Lima. Os casos refletem uma tendência mais ampla: a digitalização dos fluxos financeiros acelerou tanto a circulação quanto a ocultação de recursos ilícitos, facilitando posteriormente sua reinserção na economia formal. Para especialistas e autoridades, esse processo ajuda a compreender o avanço das facções sobre atividades econômicas legítimas.
Com o apoio de profissionais especializados, grupos criminosos passaram a estruturar mecanismos financeiros sofisticados para conferir aparência de legalidade a valores de origem ilícita. Ao mesmo tempo, instrumentos de monitoramento e fiscalização podem contribuir para identificar e rastrear essas operações.
“Antes o setor formal era o meio para ocultar recursos. Agora o setor passou a ser parte do próprio negócio criminoso. Temos fintechs que são criadas apenas para prestar serviços ao crime organizado. Essa mudança é particularmente relevante no contexto financeiro. Estudos internos mostram a magnitude dos fluxos financeiros e a necessidade de identificar seus beneficiários finais, justamente porque esses volumes podem ser utilizados para lavagem de dinheiro de forma estruturada e sofisticada”, sintetizou a superintendente da Receita Federal em São Paulo Marcia Meng, que coordena a equipe do órgão responsável pelas apurações da Carbono Oculto e Fluxo Oculto.
Freio de arrumação
Autoridades apontam a necessidade de vigilância reforçada sobre fintechs, plataformas de apostas, criptoativos e até influenciadores digitais para conter a expansão de esquemas ligados ao crime organizado.
Após as operações que associaram fintechs a facções criminosas acenderem um alerta no setor, a Receita Federal conseguiu atualizar normas para obrigar essas instituições a fornecer ao Fisco informações sobre movimentações financeiras nos mesmos moldes exigidos dos bancos tradicionais. Até então, esse segmento não estava plenamente abrangido pelos mecanismos de fiscalização do órgão.
A mudança permitiu ampliar o rastreamento das conexões entre criminosos e fintechs, contribuindo para o avanço das investigações que culminaram na operação deflagrada na semana passada.
O Banco Central também reforçou sua atuação. Embora já tivesse identificado vulnerabilidades decorrentes da atuação de fintechs sem licença, o processo de fechamento dessas brechas ocorria gradualmente.
Poucos dias após a Operação Carbono Oculto, o BC publicou norma exigindo que essas instituições obtivessem autorização formal até o fim de maio. Também foram estabelecidos limites para transferências destinadas a entidades fora do sistema regulado, regras mais rigorosas para empresas de tecnologia financeira e medidas destinadas a extinguir as contas-bolsão.
“Muito dinheiro proveniente do crime organizado circulou por essa brecha, que foi finalmente fechada” afirma o subprocurador-geral da República e coordenador do Gaeco Nacional, José Adonis Callou de Araújo Sá.
Bloqueio de CPF
Outro tema em discussão é o endurecimento das medidas contra contas laranja, frequentemente utilizadas em golpes virtuais, ataques cibernéticos e operações de lavagem de dinheiro. Essas contas são abertas com documentação legítima, mas posteriormente vendidas ou alugadas para criminosos.
Uma das propostas analisadas, com apoio do Ministério da Justiça, prevê o bloqueio do CPF associado a essas contas em todo o sistema financeiro nacional.
Atualmente, quando uma conta é identificada como instrumento de fraude via Pix, a instituição financeira responsável é obrigada apenas a encerrar o vínculo com o cliente.
“Quem negocia a integridade do seu relacionamento bancário precisa ser alcançado pelo braço forte do Estado. Defendemos a expulsão por no mínimo cinco anos dos clientes que se juntam a golpistas e fraudadores” defende Isaac Sidney, presidente da Febraban.
Segundo Ivo Mósca, diretor de Inovação e Produtos da entidade, os bancos associados já destinam cerca de R$ 5 bilhões por ano à segurança corporativa. Mesmo assim, as medidas ainda não conseguem eliminar completamente as vulnerabilidades exploradas por criminosos.
Com grande capacidade financeira, organizações criminosas conseguem atuar na fronteira da inovação tecnológica, inclusive utilizando recursos de inteligência artificial. Nesse cenário, o Banco Central prepara o aumento das exigências relacionadas à segurança cibernética das instituições supervisionadas.
“O surgimento de novos modelos de negócio, como fintechs e o crescimento do mercado de criptoativos, traz ganhos importantes de eficiência e inclusão, mas também exige evolução contínua dos instrumentos de regulação e supervisão”, destaca em nota o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino.
Nova lei de crimes financeiros
As criptomoedas também figuram entre as ferramentas exploradas pelo crime organizado, em parte porque a tecnologia blockchain opera sem uma autoridade central responsável pelo controle das transações.
Uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro identificou uma estrutura de mineração de criptomoedas composta por 30 computadores dedicados à atividade, alimentados por energia furtada no Complexo do Lins, área dominada pelo Comando Vermelho.
Como responsável pela supervisão do mercado de criptoativos, o Banco Central determinou que todas as corretoras do setor, inclusive as que já estão em funcionamento, iniciem imediatamente o processo de regularização.
A orientação é priorizar empresas que apresentem sinais claros de incapacidade para continuar operando dentro das exigências regulatórias, deixando para uma etapa posterior aquelas que necessitam apenas de adequações pontuais.
Autoridades destacam, entretanto, que o principal desafio continua sendo a possibilidade de cada usuário manter sua própria carteira digital, sem depender de intermediários financeiros.
“O uso de criptoativos facilita muito a ocultação do produto do crime. Já avançamos com a regulamentação do mercado, mas precisamos avançar com uma renovação da lei dos crimes financeiros” diz o advogado e professor de direito penal da USP Pierpaolo Bottini.
As apurações envolvendo o Banco Master e as operações de combate ao crime organizado realizadas em 2025 também revelaram o uso de fundos de investimento para esconder os verdadeiros destinatários dos recursos. A estratégia utiliza estruturas em cascata, nas quais fundos investem em outros fundos, reduzindo a transparência sobre os beneficiários finais.
Embora sejam regulados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e compartilhem parte de suas informações com o Banco Central, os fundos ainda apresentam lacunas reconhecidas pelo Ministério da Fazenda, que estuda alterações normativas.
“Toda a tecnologia permite a invenção de novas formas de escoar dinheiro a partir de brechas do sistema financeiro, e o Estado, que tem que regular, demora a entender o que está acontecendo” afirma o jornalista e pesquisador do Núcleo de Estudos de Violência da USP Bruno Paes Manso.
Rede de bets ilegais
Em outra linha de investigação, os cantores MC Ryan e MC Poze são suspeitos de utilizar sua ampla audiência nas redes sociais para promover plataformas ilegais de apostas, além de manter supostas ligações com o PCC e o Comando Vermelho. As investigações da Polícia Federal indicam que recursos oriundos de apostas clandestinas e do tráfico de drogas eram misturados, nas mesmas contas bancárias, a receitas declaradas de shows e contratos artísticos. As defesas dos artistas negam qualquer irregularidade.
Outra apuração conduzida pelo Ministério Público de São Paulo apontou que contas da advogada Deolane Bezerra, também associada ao universo das apostas, teriam sido utilizadas para transferir recursos ao líder do PCC, Marcola, e a familiares.
Segundo investigadores, o método é relativamente simples: recursos de origem ilícita são depositados em plataformas de apostas, passam por movimentações sem preocupação com ganhos ou perdas e posteriormente são sacados com aparência de legalidade.
Plínio Augusto Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), sustenta que o problema está concentrado em operadores ilegais e afirma que as empresas regularizadas seguem protocolos rigorosos de prevenção à lavagem de dinheiro, reportando operações suspeitas ao Coaf.
A entidade disponibiliza ao governo um laboratório voltado ao monitoramento de plataformas irregulares, sistemas de pagamento e influenciadores digitais. Nos últimos dez meses, cerca de 30 mil sites considerados ilegais foram retirados do ar, enquanto aproximadamente 300 instituições financeiras estão sob processo de bloqueio por suspeita de ligação com apostas clandestinas.
Para executar esse trabalho, a Secretaria de Jogos e Apostas do Ministério da Fazenda mantém em seus quadros profissionais com experiência em investigações de lavagem de dinheiro e atua em cooperação constante com o Banco Central e a Receita Federal. Em diversas situações, instituições de pagamento utilizadas por plataformas ilegais já estavam sendo monitoradas por suspeitas de outros delitos financeiros.
A Associação Brasileira de Criptoativos (Abcripto), por sua vez, argumenta que menos de 1% das transações globais envolvendo ativos digitais são classificadas como ilícitas, conforme levantamento da Chainalysis, empresa especializada em análise de blockchain. O percentual é inferior à estimativa de 2% a 5% de lavagem de dinheiro atribuída pela ONU e pelo FMI ao sistema financeiro tradicional.
“Como qualquer tecnologia financeira de alcance global, ativos digitais também podem ser utilizados de forma indevida. Mas o setor regulado vem evoluindo de forma consistente em mecanismos de supervisão, rastreabilidade e cooperação institucional”, disse Julia Rosin, diretora-presidente da Abcripto.
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(Com informações de O Globo)
(Foto: Reprodução/Magnific/DC Studio)


